domingo, 15 de janeiro de 2017

ASSOCIAÇÃO FRATERNIDADE OPERÁRIA


Fundada em 14 de Janeiro de 1872 surge a Associação Fraternidade Operária, tendo por base os modelos da Aliança da Democracia Socialista, de Bakunine

Esta associação foi instalada na Rua das Gaivotas, onde funcionava o Grémio Popular, mais tarde instala-se na Calçada da Estrela, nº16, em Lisboa, constituíram-se aí três secções da Fraternidade Operária: Chelas, Marvila e Poço do Bispo. Foi ainda criada uma filial da associação no Porto em 30 de setembro de 1872, instalada na Rua Gonçalo Cristóvão. Esta associação esteve na organização de greves e das primeiras comemorações do Dia do Trabalhador em Portugal. Foi também esta associação operária que conseguiu publicar o jornal Pensamento Social que pode ser consultado na Biblioteca Nacional de Lisboa AQUI.

A Associação Fraternidade Operária foi influenciada pelas orientações aprovadas no 5.º Congresso da Associação Internacional (realizado em setembro de 1872, em Haia). Foi também por sua iniciativa que se desenvolveu o processo de fundação de um partido socialista em Portugal que se concretizou em 10 de Janeiro de 1875, no Partido Socialista Português (PSP), por proposta de Azedo Gneco e José Fontana.


Entre 2 a 6 de Setembro de 1872, teve lugar na cidade holandesa de Haia o V Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), vulgarmente conhecida como a I Internacional. Este congresso marcou historicamente pelo facto de ter consagrado a vitória do marxismo sobre as correntes oportunista de esquerda e de direita representadas pelo proudhonismo e pelo bakuninismo, e de, na base dos documentos fundadores da AIT e das teses fundamentais do marxismo, ter desenvolvido os fundamentos orgânicos, tácticos e ideológicos dos partidos políticos da classe operária que se deveriam constituir em cada país.
A evolução da Fraternidade Operária foi rápida e muito satisfatória. As investigações indicam que esta associação um ano depois, Lisboa tem já dez mil sócios e o Porto cerca de oito mil. Nos arredores destas duas cidades haveria mais uns milhares de sócios. Em Lisboa notaram-se os efeitos da acção da Fraternidade Operária: em 1872 rebentava um surto grevista inédito pelas suas dimensões e alcance, já que «fundidores, fragateiros, tipógrafos e tanoeiros entram em greve, pedindo melhores condições de trabalho», refere Filomena Mónica, que não deixa de salientar, igualmente, o carácter limitado do impacto destas greves porque «tudo isto se passava apenas em Lisboa. Tudo isto se mantinha limitado a alguns grupos de trabalhadores aristocráticos. Este aspecto da modernidade do movimento operário português perturbou um pouco as autoridades e o meio empresarial, mas é necessário não esquecer que nesta época, e de acordo com o Código Penal então em vigor, a greve era crime.
Em Julho de 1872, a delegação da Associação Fraternidade Operária, em Almada contava já com mais de cem sócios e continuava a aumentar o número de adesões conforme assinalava o Pensamento Social AQUI.
Em 1873, a cidade do Porto juntou-se aos movimentos grevistas liderado pela Fraternidade Operária. Realizaram-se greves de tabaqueiros, charuteiros, cigarreiras e ferroviários, reivindicando aumento de salário e mais regalias sociais. Os resultados destas movimentações operárias saldaram-se, em todos os casos, pela derrota. Silva Lisboa e Miguel Mendes, militantes da Fraternidade Operária do Porto, eram presos por terem participado e estimulado a greve dos manipuladores de tabaco.
O Pensamento Social, nesta altura já o órgão da Fraternidade Operária e onde colaboraram Antero de Quental, José Fontana, Oliveira Martins, Jaime Batalha Reis, Nobre França, Eduardo Maia, Augusto Tedeschi, Azedo Gneco e outros.
A publicação de O Pensamento Social (Fevereiro, 1872/Outubro, 1873), desempenhou papel de extraordinária importância na divulgação da luta e da organização dos trabalhadores em Portugal e no estrangeiro, na denúncia e explicação dos mecanismos da exploração. Com a publicação de artigos teóricos, O Pensamento Social, ainda que reflectindo a natureza ideológica heterogénea da secção portuguesa e nas suas páginas se pudessem encontrar posições anarquistas, deu uma enorme contribuição para o debate ideológico e para a afirmação da corrente marxista. Foi com O Pensamento Social que se começaram a publicar em Portugal textos marxistas: Manifesto Inaugural da AIT, escrito por Marx, Estatutos Gerais, artigos de Engels e de Pablo Lafargue, o Manifesto Comunista, para além da utilização de artigos de jornais de diferentes secções da Internacional dirigidas por marxistas.
A 4 Outubro de 1873, com a publicação do n.º 55, O Pensamento Social, depois de várias tentativas para impedir o seu fecho, deixava de se publicar, acompanhando o destino de outros jornais operários na Europa. Vivia-se já a crise generalizada no movimento operário internacional, que atinge igualmente o português.
As «associações de resistência», as únicas organizações de massas da classe operária existentes então, que deram suporte à acção dos internacionais e à afirmação dos elementos que se reclamavam do marxismo, começam a perder filiados e influência. A luta operária recua drasticamente.
A Fraternidade Operária entretanto fundiu-se com outras organizações operárias na Associação dos Trabalhadores na Região Portuguesa (ATRP) a partir da fusão entre a Associação Protectora do Trabalho Nacional e passou a funcionar como dependência da Internacional Operária. A delegação desta organização no Porto foi criada em 29 de Outubro de 1873, contando com duzentos sócios e encontrando-se instalada na Rua de Santa Catarina. Segundo Gonçalves Viana, que descreve este núcleo fundador da Associação dos Trabalhadores do Porto: «Foi aí, na Rua de Santa Catarina que, na nossa juventude, em Agosto de 1875, entrámos nos trabalhos da Associação dos Trabalhadores (...) onde encontrámos nos restos do movimento operário de 1873, da classe de tecidos de algodão, entre outros, os irmãos Alecrim e Teixeira; um dos irmãos Verdial, o outro ensaiava-se para actor; os primos Martins, de que passámos a fazer parte, da classe de ferro e representantes de uma humilde família de Viana do Castelo; um bom núcleo de operários das fundições do bairro de Massarelos e tantos outros, hoje desaparecidos do número dos vivos, que durante alguns anos alimentaram a ilusão de que a sociedade actual, cheia de injustiças, seria em breve substituída por outra mais justa e humanitária»
Em 1876, a direcção da Associação dos Trabalhadores na Região Portuguesa portuense era constituída por Eduardo Carvalho e Cunha, António Moreira, Silvestre Pinto Caldeira, José Alves Magalhães e Vasconcelos, José Ferreira, José Domingos da Cruz, João Baptista Esteves, Manuel Rodrigues Alves dos Santos, António Cardoso Mesquita e José Domingos Pereira. Na Associação dos Trabalhadores do Porto estavam filiados 2200 operários. Em Lisboa eram 3600 trabalhadores..
 
Uma das várias greves que se realizaram em 1872 pode ser confirmada AQUI.
Idêntica notícia publicada no Brasil sobre greves em Portugal pode ser consultada AQUI
Mais referências importantes sobre a Fraternidade Operária disponíveis aqui: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/15094/2/2481TM01P000076505.pdf
Vide também o artigo de Victor de Sá AQUI.
O artigo de Rui Manuel Brás também deve ser consultado AQUI.

A.A.B.M.

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